Escolas Asas e Escolas Gaiolas: O que Rubem Alves quis dizer?

"Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado."

O que Rubem Alves quis dizer sobre escolas gaiolas e escolas asas? Uma prende e a outra liberta, mas do quê? É claro que o autor estava se referindo a pensamentos aprisionados e não a atitudes apenas. Há tanta confusão com a palavra liberdade hoje, que se formos promover um debate, certamente nos demoraríamos em sua conclusão.

Assegurar que a criança não aprisione a sua mente é um grande desafio, pois há que se lutar contra um sistema estabelecido que aprisiona e não liberta. Não há interesse para que as pessoas pensem livremente. O sistema nos empurra para uma massificação mental, onde tudo deva ser controlado por ele. E quando há controle, há aprisionamento.

A função da escola é assegurar que a massificação não ocorra para que a liberdade de pensamentos se estabeleça. Como fazê-lo? Aproveitando todas as oportunidades que a criança apresenta no espaço escolar e fora dele. Há uma maneira de libertar pensamentos e isso só será possível quando houver de fato, uma compreensão clara do que seja liberdade.

Ouço as pessoas dizerem que temos que ser livres sem ao menos compreenderem a palavra na sua essência. Liberdade não é fazer o que se quer e sim fazer o que seja melhor para todos. Vivemos em sociedade, portanto, as nossas atitudes devem estar vinculadas ao bem estar comum e não às atitudes egoístas do "eu" dominante, tirano. Tarefa desafiadora, pois a nossa tendência desde que nascemos é manipularmos todos para que possam nos servir.

Nascemos sim com a essência do voo, mas há um tempo certo que se deve aguardar que é o da maturidade, e é aí que entra o papel da escola e da família como incentivadora de voos. Uma parceria aqui deve ser estabelecida, uma vez que a criança pertença a um lar. É primordial a presença da família dentro da escola como uma parceira e não como um vigia. A escola é responsável por 30% de influência sobre a criança e a família por 70%, se a parceria for estabelecida, obteremos os 100% e essa criança terá de fato, uma educação completa e não fragmentada, garantindo assim o seu voo tão almejado.

O exemplo positivo é a melhor maneira de assegurarmos um voo responsável, mas, se em minha educação básica eu não tive bons exemplos, dificilmente serei um exemplo positivo para a criança, então, a providência a ser tomada é fazer a mudança em minha pessoa primeiramente, para que naturalmente eu possa ser o exemplo. Aqui encontra-se o ponto essencial de que há, primordialmente, a necessidade de uma reflexão e transformação do adulto que somos para o adulto da criança que desejamos que seja. Quando falamos em liberdade, estamos nos referindo a caráter, então, temos que ter em mente que a formação de um bom caráter dependerá das atitudes repetidas juntamente com os pensamentos e sentimentos. Sendo assim, há perguntas que devemos refletir e responder: o que as nossas crianças vêem? O que elas sentem? O que elas pensam? Todos esses estímulos partem daquilo que ocorrem dentro dos nossos lares, escolas e influências externas. Convido o leitor a refletir sobre quem de fato está educando a sua criança: a família, a escola ou as influências externas? Pense e reflita: a sua criança está sendo encorajada a voar? Se a resposta for positiva, para aonde?